Duas provocações sobre o fazer literário nos interiores de Brasil


 

O mundo literário no Brasil há tempos se faz por tantas frentes, e infelizmente por motivos tantos, uma ou outra possibilidade afirma-se ou é afirmada como melhor ou pior. Entender o consumo e a produção literária nos diversos sítios deste país, torna-se necessária para o encontro de reinvindicações, e inclusive para provocação de políticas públicas para tais.
Depois de 2 anos, tenho a alegria de retornar ao circuito literário de forma presencial. Chego agora do Seridó Norte-Rio-Grandense compartilhando experiências de meus sertões de mundo e sendo presenteado por vistas próprias de mais um lugar único da produção literária deste país. E retorno à rotina com certezas de que, sim, precisamos de mais e mais momentos destes.
1. SOBRE UM CIRCUITO DE INTERLOCUÇÕES
Recortando um tanto o panorama de Brasil, trago a experiência dos interiores do Nordeste, no entendimento de seu próprio fazer literário já há quase uma década, e que só se amplia dia a dia. Surgiu ao longo dos últimos anos, um grande movimento espontaneamente de momentos literários por quase todos os nove estados. A maioria em cidades pequenas e que historicamente não possuem experiências clássicas do viver literário (livrarias, editoras, espaços de debate, entre outras), trazendo provocações a tais lugares e por conseguinte, fomentando adeptos (consumidores e produtores literários) antes inertes ao simples não contato com a literatura, descentralizando o debate.
Apesar do grande movimento, muitos desses eventos não conversam. Uma falha. Uma lacuna. Por motivos vários, alguns incapazes de julgamento, mas necessários ao debate.
No meio disso, veio a pandemia. E muitos eventos também, muitas lives, debates, e a questão: a literatura feita no Nordeste conversa da forma que poderia conversar? Acredito que ainda não, não por má vontade, mas por uma simples ausência de articulação. E creio que este é o momento mais oportuno de seguir com essa provocação, já que paradoxalmente, a pandemia aproximou movimentos e espaços e possibilitou voz-primeira a tantxs, antes excluídxs pela simples barreira geográfica aos debates e à produção literária que ecoa país adentro/afora.
A criação de um circuito interligando diversas praças ou mesmo a criação de eventos representativos, partilhados e consumidos sem nenhum provincianismo ou bairrismo torna-se necessário, quando não urgente.
2. SOBRE O FORTALECIMENTO DE UM MERCADO INDEPENDENTE
É nítido ao circular os sertões, o fortalecimento de várias cenas literárias locais e todo um mercado que a envolve – editores, revisores, artistas visuais, gráfica-editoras, etc. -, por vezes em várias frentes, e quase sempre alicerçadas num mergulhar independente, já que a forma cartesiana imposta tradicionalmente de mercado do livro, lá não chega, ou sequer faz questão de chegar, ou talvez ainda nem a caiba como se impõe.
Tais cenas fervilham, mas infelizmente apenas localmente, quando muito dentro do estado. Imaginemos todas essas cenas locais conversando articuladas. Que potência teríamos em tantas frentes, e dentre estas, mais uma possibilidade de o Brasil se encontrar de dentro pra fora por sua literatura.

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