Poesia: vida, arte e palavra


 

Quem, eu, pra falar de poesia? Quem todos nós, na verdade? A poesia aí está, certeza! em todo canto (inclusive em poemas), e eu cá de enxerido a vir pensar um tanto de seus porquês. Poesia é bicho esquisito. É concreto e abstrato no mesmo suspiro do to-be-or-not-to-be. Explicarei. Explicarei. Trarei muitas falas que fui colecionando dia a dia, e muito de vistas que eu mesmo fui descobrindo ladrilho a ladrilho neste estradear de vida. E aqui, um dizer da poesia em diversos âmbitos, por ora, três: a sua inerência humana; a arte; e a escrita. Talvez haja mais, talvez. Comecemos.

Não vejo outro inventar do homem, senão o seu primeiro encontro com a poesia. É dentro desse significado que começo a falar dela: o simbolizar, – o dizer das coisas pralém. O primeiro registro que se há de arte, e tomemos por arte, uma manifestação puramente humana, são as garatujas em pedras: formas, não-formas, qualquer-coisa; todas, mesmo distantes, a trazerem um porquê profundo, inconsciente, creio: o do homem dizer algo da/à sua existência pra ele mesmo (e pra todos), ressignificando a realidade, que nela mesmo não bastava. Até hoje, cá estamos nessa peleja de futricar significados para que a vida não se perca em sentido. Adélia Padro a dizer sobre isso, exemplifica bonitamente: memore a mais precária moradia das periferias do Brasil. Coberta de tapumes, latarias, papelão. E que nela more uma família (ou um indivíduo que seja). Ao seu interior, um mero cuidado de sobre a mesa, haver uma rosa (mesmo artificial), ou à parede, uma simples fotografia de um recorte de revista, apresentam de forma singela e profunda, a mais pura grandeza humana, a afirmar que a vida é mais que tudo que se vê ou se pode ter. Esse, o mais amplo significado para poesia: a capacidade inerente do ser humano de ressignificar sentidos; transcender o real; e à vida, a poesia, uma necessidade humana, tal quase uma necessidade biológica de existência.

Diante desse saber, e se poesia é algo inerente ao humano, conclui-se: tudo é (ou pode ser) poesia. E pode mesmo, mas nem tudo é. Disse Manoel de Barros: “ser poeta é carregar água numa peneira”, carregar o vazio, as possibilidades de ser. E é isso. A poesia no seu mais amplo significado, que acaba por mergulhar em todos os outros que seguirão. A saber disso, cá, afunilamos (e vamos mais ainda) o debate, e chegamos num dito e redito tanto e tanto: a poesia a ser (inclusive) arte -, aqui: a concretude, já mencionada, surge.

Há poesia sem arte, o inverso é falso: qualquer-coisa, arte não. A arte, como seu próprio vocábulo latino ars diz, significa técnica, habilidade, e assim a afirmo, como o conjunto ou processo de concretização (concreto, no sentido de produzir algum produto: poema, filme, espetáculo, tela, et coetera) da possibilidade de ser da poesia, alicerçada a partir de elementos estéticos e de saberes adquiridos no caminhar do tempo que promovam uma poética a conversar (ou dizer) com determinado público (que não é inerte ao processo, pelo contrário: agente). Aí, o porquê do artista e da arte.

Ao pensar sobre o papel social do artista, desde o sempre, não há como fugir de Platão e sua República. O grego ao propor seu projeto de sociedade, formada por pessoas, instituições, e a/na realização estrita de suas funções, o que fez?: extraditou o poeta (o único, diga-se de passagem!; e tratemos por poeta, aquele a produzir poesia no seu mais amplo sentido). Há quês muito simbólicos nessa proposição, que ao mesmo tempo “dignifica” ainda mais o papel do artista na sociedade, e ao mesmo tempo o marginaliza, como figura social “perigosa”. E por quê? Ora, a República articulada por Platão traz em seu propósito estrutural, a perfeita harmonia da sociedade em seus diversos âmbitos, com cada membro ou grupo desse regime governamental a exercer funções específicas, não-permissíveis de não-zelo. Estabilidade: regra. Diante disso, vem o porquê social do poeta. Qual? O de ser o inverso disso. Provocar.

Carlos Felipe Moisés afirma: “a poesia nos ensina a ver, como se víssemos a primeira vez”. Que perigo! Que poder! Daí, necessária, a arte ao mundo. Se ela ensina a ver, logo provoca, logo (nos) ressignifica, logo diz pralém. A poesia nunca deu peixe a ninguém, sempre provocou à pesca. Autoajuda, longe disso. É dura. Mas necessária, e deve dar permissão ao pensamento do outro. Nada de respostas, mas caminhos a elas. E assim, fica onde a alienação? Cabe não. Cabe não. O poeta desestruturaria a República, caso cumprisse seu papel de forma reta, logo viu Platão. Por esses motivos, e ainda hoje, quase 2500 anos depois, o poeta é perseguido.

Neste âmbito, a arte é o caminho principal e palpável do destilar poesia à vida, essa inerente, como já dito, ao ser do humano. O artista, numa paciência e esperança de garimpo, busca-a, logo a realizar seu mote social: apresentar poesia ao mundo, em livros, telas, filmes, músicas e qualquer outra possibilidade de ressignificar o entendimento da vida.

Sobre tal questão, enxerindo-me a contar um tanto dos meus dias sobre, digo que a arte deu-me os primeiros olhos ao mundo, mesmo eu lá pros 12, 13 anos de idade. Nunca mais fui o mesmo desde esse encontro. Soube por ela, da vida. Soube do pensar meu. Soube que eu poderia dizer. Às vezes, duro o próprio enfrentar, o desconsertar-se, o ir e não mais voltar. Não há volta. Pra mim não mais, desde esse depois. Foi o meu rasgar da caverna do tão já citado, Platão.

Eu, sertanejo, da pequena Varjota, a sei quantas distâncias do “mundo”, soube da vida por cá: não-dita, solta nas infindas possibilidades de ser; e do tempo. Onde eu ‘tava? Perguntei, depois duma aula sobre Drummond, no segundo ano do Ensino Médio, onde Dona Aricinha, professora de português, dizia do debulhar do lugar e do tempo ao poeta. Nunca esqueci. E foi em tentativas de dizer do meu mundo neste tempo, que esbarro nas letras, depois de passear (e ainda) pelo teatro, pela música, pelas artes visuais.

Quis dizer disso.

Mas sigamos. Sigamos a tão dita poesia, e o seu último dizer, o mais usado até (muitas vezes de forma incongruente, por sinal): a poesia como a arte da palavra (que é também!); do verso. O poeta inglês Coleridge neste sentido a disse como: “as melhores palavras na melhor ordem possível”.

Neste sentido, e pra elucidar a confusão básica e eterna: poesia não é poema e vice-versa. Poema: o concreto, o texto; poesia: a possibilidade de ser pralém (do texto), ou como disse Antonio Carlos Secchin: “poema é o rastro possível da poesia que andou por lá”. E quantos poemas sem poesia seguem por aí! Nesse contexto, o que está para os dois, é linguagem, a palavra, e dela, o dizer. E nisso, vem o cuidado com a palavra. Tal reflexão vale a outras vertentes artísticas, onde a estética também, a escanteio. “A linguagem não pode ter um papel passivo dentro do texto literário”, afirmou Augusto de Campos, e infelizmente, em muitos casos, têm. A linguagem como um simples meio é um aleijo ao encontro estético, e uma grande perca para mais uma camada simbólica de ressignificação nunca em excesso em um trabalho artístico. Tais obras ficam? Não sei. Não sei. Mas acredito, que a poesia de fato é bem mais possível, num poema bem dito e a dizer muito.

Na poesia, enquanto possibilidade literária, aparece de forma explícita o “concreto” e o “abstrato” desse seu ser; ou em parte, a ideia/“inspiração” a partir da palavra (o inconsciente), e o lapidar (o consciente). Sempre tive antipatia pelo termo inspiração, dita por muitos, como o maior fundamento da construção artística. Discordo. Discordo inclusive do termo, que creio não dizer o que se propõe. O fazer artístico, algo puramente advindo? Puramente externo? E as vivências do autor? Vejo, que mesmo num processo inconsciente, qualquer que seja a obra na sua concepção, não passa inerte pelo viver do seu criador. Há um quê externo (que vem sabe-lá-de-onde), e um interior (da condição do poeta). Por longo tempo, procurei, vasculhei algum vocábulo que me valesse, embora não satisfeito ainda, encontrei Imaginação, o dar ação a imagens, verbalizá-las, mas que ainda não diz tudo, mas diz muito mais sobre, que a incompleta Inspiração. De todo modo, acredito e sou alvo em muitas construções desse invadir inconsciente, que é difícil de explicar, e nem sei s’explica. Mas acontece. Posta a ideia em palavras: o lapidar consciente, num trabalho de cuidado à palavra e o que ela traz consigo.

Assim, a poesia, a ser mais um monte de coisas, e que eu ainda não sei.

1 Comentário

  • Zélia Sales

    janeiro 4, 2022 - 10:52 pm

    Que massa sua apreciação sobre poesia: tudo tão claro e tão confuso, como é próprio da poesia. Salve, dona Aricinha! Salve, todos aqueles que nos despertam para a inquietação da Arte.

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